quarta-feira, 24 de abril de 2013

Jacarta, a mulher esvoaçante e as três graças

No aeroporto de Jacarta, mistura entre burkas, tchadoris e cabeças descobertas e maquilhadas, se a burka e o tchadori pretendem tornar as mulheres menos atraentes, o sucesso é pouco.

No aeroporto passa por nós um casal peculiar, ele parece saido de um festival rock, barba, t-shirt, calçoes, pulseira, ao lado uma mulher esguia completamente coberta, com burka fechada e luvas pretas. Os dois seguem a passo rápidissimo, ela esvoaça ao lado dele, magnética, impossivel não olhar, comunica através do movimento a sua energia e é muito, muito sensual. Quero pará-los, e saber como sao, qual é a vida deles, ver a cara dela. Ele segura-lhe a mão para a ajudar a avançar ou está a arrastá-la através do aeroporto? Ela esvoaça ao lado dele com orgulho como me parece ou com medo?

O motorista leva-nos através do transito caótico até um hotel “próximo” do aeroporto, parecem horas no trânsito quase parado. Olho à volta e fico estupefacta, além das inúmeras motas, todos os carros parecem ser do mesmo modelo, são novos, tipo jipes, lustrosos, o número de motas é astronómico.

Chegamos ao hotel e queremos ficar so num quarto para poupar dinheiro, vamos fazer assim toda a viagem, temos medo de chocar, por isso transformo-me em mãe, e a Rita e o António começam por ser os meus filhos, depois serão filho e nora quando nos sentirmos mais confiantes.

Algo no olhar dos homens, um olhar de cima incomoda, peço por gestos um lençol extra aoempregado e responde-me que não, sinto desprezo na atitude dele. È isto ser muçulmano?

Vou descobrir ao longo da viagem que ser muçulmano pode ser tantas coisas como ser cristão. Isto também. Detesto ser olhada assim.

Ninguém fala inglês, no bar tento pedir papel higienico por gestos... muito fácil exceto hoje, exceto aqui, nao posso de modo nenhum fazer o gesto. Demoro muito tempo mas finalmente ele compreende.

Ao lado do nosso espaço, há um pátio lindo, só mulheres cobertas aí, venho a saber que neste hotel há um espaço separado para muçulmanos, não querem partilhar espaços.

De manhã cedo levanto-me para ir buscar o pequeno almoço, três mulheres no pátio, quando passo, olham em simultâneo no sentido contrário, parece uma dança coreografada, como três garças rodando o pescoço, pressinto que não é bom olhar para mim, estou demasiado descoberta, sinto curiosidade e irritaçao. Quem me dera poder perguntar, descobrir quem são, porque fazem assim. Quando passo no sentido contrário confirmo, é como se eu fosse invisivel. Fico sem saber se é a minha imaginação e o meu medo ou a realidade.

Voltamos para ao aeroporto, através do mesmo transito caótico, desta vez para o terminal nacional, principalmente locais aqui, só mais dois ou três ocidentais na sala de espera.

No aeroporto todas as mulheres com a cabeça coberta, nada de burkas mas muitos tchadoris, em formatos engraçados, acho que lhes ficam bem, realçam os olhos e os sorrisos, a rapariga que despacha as bagagem namorisca o António abertamente, bate as pestantas, inclina a cabeça, olhos enormes, bonita, ao contrário de Kuala Lumpur e do hotel, muito riso aqui, muita brincadeira, sente-se um ambiente alegre. Diferentes formas de ser muçulmano.

À espera do avião um grupo de mulheres, uma menina muito pequena toda coberta, vem de mão dada com uma delas, totalmente coberta mas descalça, saltita feliz... é uma imagem bonita.

No avião as hospedeiras podiam ser modelos, dizem: somos obrigadas pelas normas a explicar-vos os procedimentos de segurança, como se fosse uma obrigação desagradável, no banco da frente um folheto com orações de várias crenças, aparentemente aqui vale mais a pena rezar. Provávelmente verdade.... no mesmo dia em que voamos, um avião da mesma
companhia não consegue parar a tempo em Bali e cai no mar, sem vitimas. Vejo na net mais tarde informações sobre a mesma Lyon Air, aproximadamente um acidente por ano, em sete acidentes só um tem vitimas mortais. Parece que rezar funciona mesmo.

sábado, 13 de abril de 2013

A Arte de Esperar



Os primeiros dias de viagem têm-me ajudado a aprender uma coisa que me assusta, da qual sei pouco: Esperar.

20 horas de viagem... o pai do António leva-me ao aeroporto, levo a prancha de surf para ele. Não quis que ninguém próximo me levasse, tinha que me manter forte, deixar a ansiedade sossegada, mas temo que não me tenha achado muito normal, meia gaguejante de medo.

Fui ao banco na véspera, a senhora vendeu-me um seguro de viagem, fez questão de me explicar que em caso de morte ou incapacidade permanente ia receber um monte de dinheiro, fiquei muito mais animada, essas são as imagens com que se quer partir de férias e despedir-se do pessoal...

Depois de chegar ao aeroporto, nada a fazer... esperar, contar o tempo a andar para trás, menos uma hora, menos duas horas, estou a aguentar, ainda não entrei em pânico - já vou disse que tenho pânico de voar? :P 

O voo mais longo 11 horas, Amsterdão/Kuala Lumpur. De caminho no monitor nomes que só conheço dos noticiários, Kerala, Khandar... menos uma hora, menos vinte minutos, às vezes "Oh não, ainda só dez minutos". Dormir duas horas, alegria.

Kuala Lumpur meia hora para desentorpecer as pernas, primeiro choque, um país verdadeiramente "estrangeiro", mulheres de cabeça tapada, olhares frios, o ar duro e triste, sobretudo delas, pequeninas e pálidas, rostos fechados. Uma energia tão inesperada que me atingiu como uma bofetada. Não me lembro de ter sido olhada assim há muito tempo.


O resto da viagem foi um salto, um voo de uma hora e meia que há umas horas me teria apavorado, foi uma maravilha, uma hora e meia até ao destino!!!! Oba!! Dormi o tempo todo finalmente... que horas são aqui? que horas são lá? Quanto tempo passou realmente? meio sonho, meio sono, meio transe.

Jacarta, António, Rita, húmidade, calor, burkas. No quarto, acordo as 3 da manhã, hora local, 23 de Portugal, completamente desperta. Não quero acreditar... três horas para acordarmos e apanhar o avião para Lombok. O tempo regressa ao ritmo do avião nocturno, lento, ao menos estou deitada, menos meia hora, uma hora, meio sono, meio sonho, meio transe, aprendo a jogar angry birds e jogo aos zombies até ao enjoo. Uma certa tranquilidade na espera, sem ansiedade. O despertador toca, esperança, o tempo afinal passou depressa, é o antibiotico da Rita, são quatro, duas até à manhã. Já só faltam duas.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Confiar na bondade de estranhos e dos amigos também :)


Realmente pensava que não teria tempo de escrever nada mas não fui capaz de ir embora sem dizer alguma coisa :)

Ainda não estou em mim com tudo isto. Como diz a Rita Sá: "Tanto amor em forma de dinheiro"

É isso que sinto, mais do que dinheiro é a forma e o carinho com que ele tem sido dado que torna tudo tão especial. Mais especial do que se eu tivesse muito dinheiro e pudesse ter pago a viagem sozinha.

Passei a vida a ouvir que sou parva, devia ser mais egoísta, pensar mais em mim, é talvez verdade em muitas coisas, mas o que sinto é que se não juntei dinheiro no banco ao longo destes anos todos - e isso andava a doer-me -juntei afetos e esses valem muito mais do que o dinheiro e como se vê podem transformar-se em dinheiro, dinheiro que alimenta sonhos.

Sim, pode-se confiar na bondade dos amigos e até dos estranhos. Algumas das pessoas que participaram não me conhecem, mas mesmo assim às cegas confiaram em mim.

Grata pela viagem, pela externa e pela interna, e por confirmarem que o mundo é um sitio bonito onde as pessoas se apoiam umas às outras.

Vou  sair daqui a pouco, enfrentar os meus dragões, mas vou estar mais forte por vocês, espero voltar tão amiga deles como a menina da imagem. Tanta generosidade, tanta bondade. Fico comovida, estou com lágrimas nos olhos quando escrevo. 

Desejo que cada vez mais seja assim, nos apoiemos e encorajemos uns aos outros e tudo se tornará tão mais doce. 

Cheia de saudades de vocês na volta quero distribuir muitas massagens e abraços
Com amor

Fátima


domingo, 7 de abril de 2013

Dragões, bruxas e cercas de espinhos - O resgate da alma

 

Gosto de ver as histórias de princesas presas em torres, bruxas, dragões e principes encantados como simbolo do resgate da alma.

A princesa representa a alma, o dragão os medos, a bruxa a mãe sinistra interior e o principe o ego. O ego tem que provar ser capaz de enfrentar os medos e as vozes de agoiro, para resgatar a alma da sua prisão ou do seu sono.

O meu dragão é o meu corpo, ele é o porta-voz dos meus medos, não porque me quer mal, mas como um sistema de alarme hipersensivel que se activa com correntes de ar. A função do dragão, não é magoar a princesa, mas protegê-la, em algumas histórias está até apaixonado por ela. 

A minha bruxa é a do julgamento, o que é que vão pensar? será que me acham egoísta por querer viajar no meio da crise? por pedir algo para a alma e não para o corpo? Há sempre alguém que critica, sobretudo os que desejam fazer o mesmo e não têm coragem. Também não o fazem por mal, apenas porque preferiam continuar a passar adormecidos pela vida e pensar que estas coisas são impossíveis. 

Mas a bruxa externa não é nem de perto nem de longe tão assustadora como a bruxa interna, a "mãe sinistra" o que tenho medo de ouvir dos outros, é o que as vozes na minha cabeça me dizem; "Não vás, é tao longe, vais ter medo, é ridiculo, não vale a pena, não és capaz, fica aqui no quentinho e aceita o que a vida te dá, lá fora é perigoso"...

A Jean Shinoda Bolen fala desta peregrinação da meia idade com muita sabedoria no seu livro "A Travessia para Avalon". De algum modo passamos a primeira metada da vida a deixar para trás pedaços da alma e a segunda metade a recolhê-los. A certa altura compreendemos que nos "vendemos" em troca de tanta coisa: aprovação, falsa segurança, falso amor. E decidimos partir, transformamos-nos no principe que parte para o resgate. 

Todos sabem que para que a missão do principe chegue a bom termo ele precisa dos aliados, são personagens misteriosos que lhe entregam oferendas misteriosas de que vai precisar ao longo da viagem. Econtrei os meus aliados em vocês. Muito mais do que dinheiro, o carinho, a valorização, a compreensão, a fraternidade com que esse dinheiro tem sido oferecido, são os meus aliados mais preciosos. Sinto-vos realmente como anjos, que me desejam bem, e que esse desejo é o meu talismã. Muito grata e comovida. <3

A Jornada

Divisaste por fim, um certo dia
o que havia a forjar, e começaste, 
apesar das vozes circundantes
a gritar incessantes maus conselhos - 
embora com a casa aos abanões
e os antigos puxões nos teus artelhos.
"Conserta a minha vida!"
gemia cada voz.
Mas tu não pararias
porque, então, sabias actuar, 
mesmo c'o escavar do vento
de violenta mão
nos exactos caboucos - 
e embora o seu pesar 
terrível fosse.
Tarde já era, 
corriam desabridas trevas, 
e a vereda seguida 
cobria-se de pedras e folhagem caída.
Mas, muito de mansinho, 
com os prantos
pelo caminho abandonados, 
brotaram estrelas cintilantes
num firmamento de nuvens casteladas,
e, foi, então, que ouviste a tal vozinha,
que, vagarosamente,
descobriste ser tua,
e tua companhia,
enquanto a passos fundos,
mais fundos de cada vez,
o mundo acometias, 
firmando, por fim, o derradeiro lance:
salvar a tua vida,
a única que tinhas ao alcance.

Mary Oliver, Dream Work


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Como embaraçar em público tres pessoas em menos de três minutos...

Como embaraçar em público tres pessoas em menos de três minutos... agradecimentos aos meus cúmplices, foram chantageados claro.





E para quem gosta de cenas cortadas....

 



segunda-feira, 1 de abril de 2013

O bater do coração










ericajong_lisacongdon 
Fonte: http://lisacongdon.com/blog/2013/03/oh-change/

O bilhete está comprado, os dados estão lançados.... 

No dia anterior a decidir comprar não conseguia respirar. 
Pensei em desistir. 
Para quê isto? Porquê ir ao outro lado do mundo? 
Todas as "vozes do medo" se juntaram para me assustar. 
"Vais sentir-te mal no avião" "Vais arrepender-te" "É tão longe" 
"E se acontece alguma coisa aqui quando estás fora?"
"E se te acontece alguma coisa quando estás fora?"
"Vais correr riscos para quê?"

Bem, vou fazer isso tudo exactamente para perder o medo.
Para dizer ao medo, acalma-te, mesmo que vás comigo eu vou.
Foi uma descoberta para mim quando aprendi as conjugaçoes das emoções saber que ansiedade é desejo + medo.
Algo que desejamos mas nos assusta, que sabemos que nos vai mudar e não temos a certeza de que forma o vai fazer. Quando viajamos sabemos quem parte mas não sabemos ao certo quem vai chegar. Se vamos encontrar ou perder algo de nós no caminho. Mas é certo que vamos mudar.

Eu era muito corajosa, viajei sózinha à boleia pelos país, gostava de desafios e aventuras, tinha uma segurança imensa em mim própria. 
A força do meu desejo era infinitamente maior do que a do meu medo. 
E sempre fui protegida.

Durante os anos de maternidade tive que calar muitos desejos e percebo agora que cada desejo calado deixa um residuo de medo, quando mais desejos calamos, mais ansiosos nos tornamos.
Esses desejos calados vão aumentando até se tornarem uma ansia imensa, e os medos correspondentes também.
Ansiedade - demasiados desejos calados, demasiadas vezes o medo ganhou de tal modo que se tornou rei, habituou-se a vencer sempre.

O coração desabitua-se de tal modo de bater forte a não ser de medo que quando volta a bater com força de desejo nos assusta e nos faz recuar... ou não :) há um dia em que se quer voltar a abrir as asas, ir buscar a parte aventureira à gaveta e voltar a usar, será que ainda serve, ou ficou pequena como os anos?

É isso que vou descobrir. 


Como participar e ganhar massagens? 
http://www.facebook.com/events/100667200126160/?fref=ts

sábado, 30 de março de 2013

Queres ser o meu anjo?


Crowd funding artesanal

Nunca tive muito dinheiro até agora, mas, como diz o meu filho mais novo, somos os pobres mais ricos que ele conhece. De uma maneira ou de outra conseguimos ter e fazer o que precisávamos.

Antes de engravidar o meu plano viajar pelo mundo, o plano foi suspenso há 25 anos... houve que cuidar as crianças e foi ótimo, o mais longe que conseguimos foi ir ao Porto, e nunca fiz a tal viagem.

Em miúda achava que 40 era decrépito e afinal sinto-me muito, mas muito melhor aos 50 do que imaginava que me ia sentir aos 40, e não quero esperar mais, estes anos foram compensadores mas muito cansativos, preciso uma mudança de ares radical, quero repegar o meu sonho, mas a conta negativa no banco é a regra, e quando há algum dinheiro há sempre duas ou três emergências familiares.

Por isso venho convidar-vos para participarem na minha aventura de aceitar o convite do António e da Rita para ir ter com eles à Indonésia.

A motivação legítima para o fazerem é o sentirem-se felizes comigo, ou terem prazer em usar o poder de tornar um sonho possível, um pequenino milagre.

Se a ideia vos agrada, por favor divulguem também aos vossos amigo, e basta um euro.

Consegui 300 euros, faltam 1000.

Mas como é justo há contrapartidas.

Até 5 euros têm direito a um agradecimento individual na minha página :)

Entre 5 e 10 euros um agradecimento individual e participação gratuita numa Cuddle partie ou numa mini sessão de constelações

Entre 10 e 25 euros um agradecimento individual e uma massagem nuca e costas, ou brasileira dos dedos dos pés quando eu voltar (com pormenores da viagem)

Entre 25 e 50 euros um agradecimento individual e uma massagem Sedativa ou de Saídas

Mais de 50 euros.. uma leitura corporal ou uma Massagem Borboleta.

Não gostas destas sugestoes? Estás à vontade para sugerir outras.

Podem postar as vossas contribuições no evento ou dizer-me por mensagem privada. Se quiserem ficar anónimos por favor avisem-me.

O Nib é o 0035 0100 000309 33530 70

Grata :)