Gosto de ver as histórias de princesas presas em torres, bruxas, dragões e principes encantados como simbolo do resgate da alma.
A princesa representa a alma, o dragão os medos, a bruxa a mãe sinistra interior e o principe o ego. O ego tem que provar ser capaz de enfrentar os medos e as vozes de agoiro, para resgatar a alma da sua prisão ou do seu sono.
O meu dragão é o meu corpo, ele é o porta-voz dos meus medos, não porque me quer mal, mas como um sistema de alarme hipersensivel que se activa com correntes de ar. A função do dragão, não é magoar a princesa, mas protegê-la, em algumas histórias está até apaixonado por ela.
A minha bruxa é a do julgamento, o que é que vão pensar? será que me acham egoísta por querer viajar no meio da crise? por pedir algo para a alma e não para o corpo? Há sempre alguém que critica, sobretudo os que desejam fazer o mesmo e não têm coragem. Também não o fazem por mal, apenas porque preferiam continuar a passar adormecidos pela vida e pensar que estas coisas são impossíveis.
Mas a bruxa externa não é nem de perto nem de longe tão assustadora como a bruxa interna, a "mãe sinistra" o que tenho medo de ouvir dos outros, é o que as vozes na minha cabeça me dizem; "Não vás, é tao longe, vais ter medo, é ridiculo, não vale a pena, não és capaz, fica aqui no quentinho e aceita o que a vida te dá, lá fora é perigoso"...
A Jean Shinoda Bolen fala desta peregrinação da meia idade com muita sabedoria no seu livro "A Travessia para Avalon". De algum modo passamos a primeira metada da vida a deixar para trás pedaços da alma e a segunda metade a recolhê-los. A certa altura compreendemos que nos "vendemos" em troca de tanta coisa: aprovação, falsa segurança, falso amor. E decidimos partir, transformamos-nos no principe que parte para o resgate.
Todos sabem que para que a missão do principe chegue a bom termo ele precisa dos aliados, são personagens misteriosos que lhe entregam oferendas misteriosas de que vai precisar ao longo da viagem. Econtrei os meus aliados em vocês. Muito mais do que dinheiro, o carinho, a valorização, a compreensão, a fraternidade com que esse dinheiro tem sido oferecido, são os meus aliados mais preciosos. Sinto-vos realmente como anjos, que me desejam bem, e que esse desejo é o meu talismã. Muito grata e comovida. <3
A Jornada
Divisaste por fim, um certo dia
o que havia a forjar, e começaste,
apesar das vozes circundantes
a gritar incessantes maus conselhos -
embora com a casa aos abanões
e os antigos puxões nos teus artelhos.
"Conserta a minha vida!"
gemia cada voz.
Mas tu não pararias
porque, então, sabias actuar,
mesmo c'o escavar do vento
de violenta mão
nos exactos caboucos -
e embora o seu pesar
terrível fosse.
Tarde já era,
corriam desabridas trevas,
e a vereda seguida
cobria-se de pedras e folhagem caída.
Mas, muito de mansinho,
com os prantos
pelo caminho abandonados,
brotaram estrelas cintilantes
num firmamento de nuvens casteladas,
e, foi, então, que ouviste a tal vozinha,
que, vagarosamente,
descobriste ser tua,
e tua companhia,
enquanto a passos fundos,
mais fundos de cada vez,
o mundo acometias,
firmando, por fim, o derradeiro lance:
salvar a tua vida,
a única que tinhas ao alcance.
Mary Oliver, Dream Work
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